O DIA A DIA DE UM CICLISTA NÃO É FÁCIL...

Ser ciclista não é uma coisa muito fácil. Se quem só anda mais por lazer e aos finais de semana já reclama da dificuldade que às vezes é se locomover no trânsito, imagine quem usa a bicicleta diariamente, seja treinando, seja se deslocando, geralmente em horários de maior movimento pelo complicado trânsito de grandes cidades como Porto Alegre.

E quando falamos de um ciclista, de uma forma geral, imaginamos aquele ciclista com uma bela bicicleta, vestido com um ótimo fardamento, geralmente fazendo isso por esporte ou lazer em um belo dia de sol por uma rua tranqüila. Mas essa definição de ciclista vai um pouco além e está longe da realidade de muitos. Segundo a Wikipédia, “ciclista é o usuário que se utiliza da bicicleta, veículo de duas rodas não motorizado, tanto para meio de transporte, quanto para objeto de lazer ou para competições esportivas de ciclismo”.

Então, pense naquele senhor que anda muitas vezes de chinelo de dedos, se capacete ou vestimenta apropriada, até mesmo sem a devida sinalização ou condições de segurança, que muito comumente vemos andando pelas ruas a qualquer hora do dia ou da noite e com qualquer tempo. Bom, ele também é um ciclista!

Mas, infelizmente, enquanto povo, nos falta cultura para entender certos conceitos, que ficam mais restritos a quem realmente gosta ciclismo, seja como esporte ou lazer e aos que tem acesso a mais informações e tem mais disponibilidade para investir em uma bicicleta de melhor qualidade, com todos os itens de segurança apropriados.

Todo este assunto traz em foco uma questão mais ampla, uma questão cultural. No país do futebol e do automóvel, as pessoas não costumam investir muito na sua magrela. As ditas “bicicletas populares” são oferecidas a baixos custos, mas também sem a qualidade mínima necessária e acabam circulando pelas nossas estradas e avenidas, muitas vezes sem manutenção, colocando em risco seus usuários e o trânsito como um todo.

Fora isso, nossas vias, ou pelo menos boa parte delas, não são feitas para bikes e sim para carros! Não têm sequer sinalização adequada em muitos locais, também são estreitas, com péssimo estado de conservação, sendo que com as crescentes vendas de carros, e conseqüente facilidade para a sua aquisição, o que vemos é ruas cada vez mais cheias de veículos, que acabam sendo usados sem a menor consciência, muitas vezes por um único ocupante e em trajetos onde seria mais funcional e econômico usar o transporte coletivo ou mesmo ir a pé (ou de bicicleta).

Isso torna o trânsito realmente muito stressante, até mesmo para os motoristas, que acabam adquirindo um carro e nele depositando uma expectativa de segurança e agilidade que nem sempre se realiza. O povo em geral, que usa o transporte coletivo nem sempre têm um serviço de qualidade e adequado as suas necessidades, acaba sendo tratado mais como quem depende do mesmo e não como um cliente, que é de fato!

Logo, a junção de todos esses fatores e mesmo inversão de certos valores cria um clima extremamente hostil e carregado de stress (com os quais contribuem a poluição e o barulho, entre outros), constituído por pessoas que dependem desse meio para se locomover e ao mesmo tempo estão loucas para sair dele. O motorista dirige stressado, o passageiro do ônibus faz seu uso em grande parte por necessidade e se torna um pedestre stressado e quem usa outros meios, como a bicicleta, por exemplo, fica exposto a muitos riscos e inseguranças inerentes à falta de respeito deste meio como um todo.

No entanto, não são poucos os ciclistas que conhecemos que fazem da sua bicicleta não só o seu instrumento para a prática esportiva, mas também uma extensão desta, através do seu deslocamento, seja para o trabalho ou mesmo outras atividades da sua rotina.

Nosso colega Flávio Cavalcante é um deles. Morador da cidade de Esteio (distante 22 km de Porto Alegre), sempre que pode, vem para o trabalho de bicicleta, sai da loja e vai para a faculdade em Canoas, onde cursa História e retorna para sua residência, rodando cerca de 45 km nos dias que vem pedalando. Participante de provas de MTB, esta é uma forma de treinar e manter-se em forma, uma vez que o tempo que dispõe é pouco e certamente, teria que dispor mais, usando o transporte coletivo disponível ou enfrentando os congestionamentos da BR 116 e avenidas da Capital. Claro que, em função da agenda corrida e horários complicados, nem sempre é possível fazer uso da bike, mesmo assim, é uma iniciativa que merece ser elogiada. Também temos outros colegas que moram na Zona Norte e Alvorada.

E para quem não tem alternativa, senão pegar os horários de maior congestionamento, resta encarar as grandes filas de carros que se formam ao longo das nossas grandes avenidas e aos poucos, começam a invadir também as vias secundárias e mesmo corredores de ônibus. Esse tipo de situações que vivenciamos em muitos momentos é que deu a idéia de criar esta postagem. Na verdade, uma das funções desse blog era justamente criar um espaço para os ciclistas como um todo, desde quem compete até quem se desloca em pequenas e médias distâncias no dia a dia. Aqui na loja, a maior parte dos funcionários usa a bicicleta para deslocar-se diariamente, rodando distâncias entre 10 e 40 km por dia, em média.

Vinha pensando em como escrever esse tópico na última sexta, quando voltei cedo da casa de alguns familiares que moram no Morro Santana e me deparei com alguns quilômetros de congestionamento ao longo da Avenida Protásio Alves, uma das mais extensas e movimentadas da Capital, importante via de ligação de cidades como Viamão e Alvorada à Zona Leste e central da cidade. Uma fila imensa de veículos que quase não andava!

Comecei a pedalar justamente nessa avenida, há cerca de dez anos, tendo sido motorista por dois e durante muito tempo, usuário de ônibus, ao longo dos mais de seis anos em que morei próximo ao Morro Santana. Mas mesmo quando andava de carro, nunca peguei um engarrafamento tão grande, nem na época da congestionada rótula da Carlos Gomes, que antecede a moderna obra da terceira perimetral, que hoje permite que uma avenida se sobreponha à outra, garantindo fluidez ao trânsito no local.

E lembro da imagem de muitos ciclistas que sempre andaram e andam através dela na primeira hora da manhã, buscando o mesmo deslocamento. Sem espaço para andar, motoqueiros e ciclistas acabam arriscando-se entre carros ou prensados junto ao meio fio pelo grande fluxo de ônibus e veículos maiores que circulam ali. São pessoas muitas vezes pouco favorecidas, que realmente necessitam da bicicleta para ir trabalhar, principalmente e que muitas vezes não são sequer mencionadas em discussões sobre planejamento urbano e ciclovias, estas que na maior parte dos casos, abrangem apenas regiões centrais mais favorecidas economicamente e com maior visibilidade na mídia.

O movimento melhora à medida que nos aproximamos da Avenida Antônio de Carvalho, mas segue intenso e piora á medida que vamos nos aproximando do centro, sem muitas opções. Muitos motoristas tentam em vão atalhar pegando ruas vicinais, mas o efeito prático é pouco. Meu trajeto seguiu pela Antônio de Carvalho e Ipiranga, até a altura da Ramiro Barcelos. Originalmente, moro no Jardim Botânico e essa parte final do trajeto é meu roteiro diário, até a altura da Rua Santana, onde após atravessar a Redenção, chego no meu primeiro trabalho.

Às 14:00, é hora de voltar para o trânsito, desta vez enfrentando outras duas avenidas de grande movimento: a Farrapos e a Sertório e à noite, normalmente faço com o Maurício o trajeto inverso, pela Sertório, Farrapos, Mauá, Beira-Rio e Ipiranga, desta vez com menos movimento. Essa distância somada, dá em média de 30 a 40 km por dia e um tempo acumulado de duas horas.

Mesmo assim, na posso negar que essa minha "queixa" tem seu lado bom, aliás muito bom!. Além de poder praticar o esporte que gosto, levo em média duas horas para cumprir esse trajeto, somando o tempo gasto, que custaria em média três horas e meia se dependesse do transporte coletivo, ainda economizo quatro passagens de ônibus (R$ 9,20 ao dia) e deixo de perder uma hora e meia em média, em paradas de ônibus ou dentro de coletivos lotados, tempo que posso dispor para meu uso de uma maneira certamente melhor do que ficar preso em congestionamentos.

Assim com eu, muitos outros usuários da bicicleta fazem o mesmo todos os dias, andando inclusive distâncias maiores. Alguns passam mais despercebidos no trânsito, com suas simples bicicletas, sem roupas coloridas (que têm como principal função conforto e maior visibilidade), mas contudo, não menos ciclistas!

Passaremos a publicar, semanalmente, o perfil dos usuários de bicicletas que conhecemos e suas experiências ao longo dos seus trajetos, começando aqui pela nossa loja. Caso deseje publicar um pouco da sua história, entre em contato conosco ou nos mande um e-mail, afinal, o trânsito é uma questão que acaba envolvendo a vida de toda a população e embora muito pouco se fale na inclusão e no uso da bicicleta, nosso país é o terceiro maior fabricante de bicicletas e o quinto em consumo.

Estas magrelas andam por aí, anônimas, nas mãos de muita gente que depende delas para fazer seu esporte, deslocar-se ou mesmo, usando-as como uma forma de diversão sadia e barata em seus momentos de lazer.





Os dados das imagens acima foram tirados de uma matéria que está no link:






Trata-se de um texto interessante, de 2008, de autoria de MARCELO GONZATTO que trata sobre mobilidade urbana, cujo nome é "Como fazer o trânsito andar" (Zero Hora do dia 18/05/2008).



Nota: embora a Administração da nossa cidade e estudiosos tenham uma visão otimista do assunto, as soluções práticas são poucas e o resultado distante do esperado, visto pela realidade que constatamos diariamente nas nossas ruas.



As ciclovias são vistas como uma das alternativas, entre outras que devem ser implementadas, porém, segundo o conceito dos estudos, uma ciclovia serviria para deslocamentos de cinco ou seis quilômetros. Vemos na prática que essa distância é maior, através de muitos relatos de usuários da bicicleta. E mesmo assim, seis quilômetros em certas regiões seria suficiente para desafogar o trânsito de muitos pontos chave em nossa cidade. Pensemos nisso!

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