Onde a tecnologia faz a diferença. Test Drive: SDW Spirit X GTS R3


Elas são bicicletas de gerações diferentes, mas acima de tudo, representam segmentos diferentes, embora sejam bicicletas de estrada. Mesmo sendo um quadro antigo, o GTS R3 ainda inspira por suas formas agressivas. Com fama de "duro", é um quadro extremamente rígido que na sua época fez muito sucesso e se destinava a quem queria inciar-se no ciclismo, sendo um quadro de entrada barato e com ótimo custo benefício. Ainda hoje, os quadros de entrada do mercado ainda guardam muitas características comuns a esse modelo.


Já o SDW Spirit foi uma geração de quadros que ficou pouco tempo no mercado, mas ainda assim, também foi, durante algum tempo, a melhor escolha para quem buscava um quadro em fibra de carbono, tanto pela qualidade como pelo preço. Com custo para a época estimado em 2 mil reais (para quadro e garfo), era uma ótima opção para quem queria um quadro de alta performance a um custo relativamente baixo.

O intuito deste teste não é confrontar as duas bikes diretamente, pois são segmentos diferentes, mas sim, mostrar o "porque" de tantas e diferentes aplicações de materiais, componentes e geometrias e também seu custo. Quem pensa que todas bicicletas são iguais, definitivamente, está muito enganado!
Por trás daquela velha geometria da "Caloi 10", nome dado por muitos a todas as bicicletas com guidão curvo, quadros enormes e 10 ou 12 marchas, que na época eram o que havia e melhor, não havendo muitas opções de modelos, existe hoje toda uma tecnologia e um amplo leque de opções, seja em termos de quadros, geometria, materiais e componentes.


A gama itens e aplicações é vasta. Temos componentes no mercado com várias concepções, bicicletas de estrada com relações de 16 a 22 marchas (como é o caso dos grupos Campagnolo, com 11 marchas), fora uma infinidade de pedivelas, rodas, cassetes, guidões, canotes, quadros e acessórios, cujos valores e aplicações são regidos basicamente pela leveza, precisão, durabilidade, geometria, rigidez e emprego de materiais.

No nosso caso, analisaremos as duas bicicletas, seus componentes e a sua aplicação, bem como as impressões ao pilotar cada uma delas, assim como a sua adequação ao piloto, que no caso, sou eu mesmo!

Tudo começou quando na semana passada, tive a oportunidade de experimentar uma SDW Spirit montada aqui na loja pelo Anderson para seu uso. Foram dois dias, onde rodei 75 km, parte em trechos urbanos e parte em circuíto e mais 93 km em trechos urbanos e estrada.


A bicicleta impressiona. Com cerca de 8,4 kg, é bem mais leve que a minha GTS R3, que uso desde 1997, quando foi adquirida na Rodociclo, atualmente, com 9,6 kg. Ambas estão equipadas com rodas Xero Xr1, uma das mais leves da linha Xero.

A primeira está montada com componentes em fibra de carbono (exceto o guidão), enquanto a segunda está montada toda com componentes em alumínio. A SDW está equipada com grupo de 10 velocidades, sendo que seu pedivela é integrado e assim como os demais componentes da relação, são do grupo Shimano 105. Já a minha possui pedivela tradicional (ponta quadrada) Campagnolo Veloce e demais componentes Shimano Sora, com STI Shimano 2200 de 8 velocidades.

QUADRO: O quadro é a alma da bicicleta. Sua geometria e construção e emprego de materiais determinarão as suas respostas e aplicações. O GTS R3 possui uma única geometria. Era fabricado no tamanho 53 (53 x 53 cm), que acabou ficando um pouco grande para mim, mas permitia ajustes e foi o quadro que cabia no meu bolso na época...


Desta forma, alguns acertos quanto ao comprimento do quadro foram feitos mexendo em componentes como mesa e selim. Mesmo assim, me sinto à vontade na bicicleta, apenas o Seat Tube (tubo do selim, que mede a altura do quadro), é um pouco longo (alto), o que torna o quadro menos ágil em termos de retomada. Também a medida do heat tube (tubo frontal, onde fica inserido o garfo) é um pouco grande, deixando a frente da bicicleta um pouco alta. Em compensação, a distância entre eixos é muito boa e a geometria reta do garfo lhe conferem um ar mais agressivo.

O SDW adota a geometria slooping, que basicamente, se resume a um top tube (tubo superior do quadro) mais longo que o seat tube. O SDW testado tinha tamanho 46 cm (46 x 50), deixando assim a bicicleta mais ágil e compacta, permitindo uma boa distribuição do selim e o uso de uma mesa mais longa. As arrancadas e acelerações são mais fáceis, permitindo respostas mais rápidas que a GTS.

Esteticamente, o GTS possui uma pintura mais "esportiva", além do largo e aerodinâmico tubo do selim (seat tube), que quase esconde a roda traseira e para muitos, é a fonte do peso adicional do quadro, já que usa muito material nesta região. O SDW é mais discreto, adotando uma pintura básica e deixando a fibra de carbono mais exposta, agregando muita beleza ao conjunto.

GRUPO: O Grupo da GTS, conforme mencionamos, é de 16 velocidades, enquanto a SDW é de 20, mas não só no número de marchas está a diferença do conjunto. Alguns componentes fazem uma grande diferença:


- STI e Cambios: Shimano 2200 X Flight Deck - Além do primeiro ser de 8 velocidades e o segundo de 10, a leveza e maciez com que o Flight Deck funciona são impressionantes (e isso que não é um trocador "do ano"). Também ambas as trocas de marchas são feitas por alavancas paralelas, que freiam e trocam de marcha tanto para diminuir, como para aumentar a marcha.

No 2200, as marchas (câmbio traseiro) são reduzidas na alavanca de freio e aumentam em um gatilho lateral, que fica inacessível quando se faz uso da parte inferior do guidão, como por exemplo, em uma situação de "sprint". Esse gatilho é substituído por alavancas nos STI do modelo Tiagra para cima. Os câmbios da SDW, além de mais leves e precisos, conferiam ao conjunto leveza e beleza, além da boa funcionalidade, contribuindo para o bom funcionamento do conjunto.


- Pedivela: O Shimano 105 integrado usado na SDW pode ser visto tecnologicamente muito superior ao modelo de ponta quadrada da R3, sendo também mais rígido e leve. Ambos com relação 53 x 39 e braço de 172,5 mm, possuem as medidas mais comuns adotadas no ciclismo de estrada. Mas a impressão que se tem é que o torque aplicado na pedalada é transmitido de forma bem mais eficiente no modelo integrado.


- Pedais - Como tenho mais duas MTB, faço uso dos pedais modelo M-520 em todas as bikes, inclusive na speed, pois são fortes, robustos e bem funcionais. Embora não seja o ideal, o funcionamento dá conta do uso. No entanto, o primeiro teste com uma sapatilha de speed (Exustar) e um pedal Ultegra já mudaram alguns conceitos meus.

Além de mais rígidas que as sapatilhas de MTB, os pedais são mais amplos, permitindo uma maior área de contato da sola do pé com o pedal. Não existe a perda de energia, que é melhor distribuída. Além disso, o sistema prende bem mais que o da MTB, mesmo usando uma regulagem mais leve, pois não queria correr o risco de cair. Levantar do selim e forçar é um movimento que é feito com muito mais segurança e desempenho.



- Cassete: Meu cassete é um 12 x 23 (dentes) de 8 velocidades. O 105 era de 12 x 27 (dentes) e de 10 velocidades. O escalonamento das marchas mais pesadas era igual em ambos, porém o de 10 velocidades tinha uma engranagem com 25 dentes e outra com 27 dentes, o que permitia o uso de marchas como 53 x 23 sem atravessar a corrente, tornando o giro mais fácil. A relação da SDW era amplamente favorável a escaladas, sem comprometer a velocidade final. O maior problema entre sistemas de 8 e 10 velocidades está na ausência de algumas marchas intermediárias (como a engrenagem 16 do cassete, por exemplo), que em situações mais extremas, deixa os chamados "buracos" entre as marchas.

- Guidão: A SDW possuía um guidão 42 cm, mais curto, porém ergonômico, permitindo uma pegada mais firme e confortável, além de deixar a bike com a frente mais "nervosa". O guidão da R3 é mais largo, com 44 cm, é ideal para escaladas, também confortável, porém um pouco pesado.


- Rodas: O modelo Xero Xr1 é muito leve, com cubos com rolamentos, 16 raios na dianteira e 20 na traseira, aro perfil alto, equipava os dois modelos, conferindo leveza e bom desempenho conjunto, Este modelo de rodas apenas não é tão rígido, não sendo indicado para circuitos com retomadas fortes ou sprints. No entanto, é uma ótima roda para estrada, pois mantém a velocidade com maior facilidade devido à leveza, aerodinâmica e baixo atrito dos cubos rolamentados. Ambas usavam pneus 700 x 23 sem arame, com 100 libras cada e fita anti-furo.

Canote e selim: A SDW tem um selim Velo Pronto D2, leve e confortável, mesmo sendo fino, afinal é uma bike concebida para longas distâncias. O canote 30.6 em Carbono, da FSA é muito belo e contribui para dissipar as vibrações. A GTS usa selim Velo e um canote 27.2 em alumínio.

IMPRESSÕES AO ANDAR:

Nas primeiras pedaladas, já senti a diferença das duas bicicletas. A SDW era mais ágil e leve. Custei um pouco até pegar a posição dos pedais, que "clipam" apenas de um lado, mas é fácil, apenas uma questão de hábito. Basta encaixar a ponta do taco na "alça" do pedal e girar pisando forte que o "clec" característico indica que o taco foi encaixado. Ao levantar do banco, sente-se uma leve flutuação do taco, mas essa é natural e favorece o movimento de pedalar de pé e sprintar.

Também demorei um pouco a me acostumar com a posição, pois a geometria é diferente e a bike era mais longa. O guidão mais estreito também era um pouco "estranho", mas logo fui me acostumando com o novo "brinquedo".

Nos primeiros 15 km, até sentir as respostas, e também pelo trânsito, não passei dos 25 km/h, quando então cheguei na Beira Rio, onde o pessoal estava já rodando. Ali com mais espaço, dei a primeira esticada, baixando marchas de forma bem rápida. As respostas impressionam, pois nem senti as trocas, bem diferente do sistema de 8 velocidades, que parece que "demora mais" a efetuar a troca. Sem sair do banco, atingi 49 km/h e senti que ia mais. As retomadas e acelerações também são bem superiores, se comparadas com a GTS R3.

Na volta, subindo a Salvador França, o cassete com 25 e 27 dentes nas relações maiores, permitiu que eu subisse sentado, girando há cerca de 20 km/h, com uma cadência na faixa de 90 rpm, um recusro interessante do ciclocomputador em uso e que recomendo para quem busca treinar com mais qualidade. Na Av. Sertório, com pouco trânsito e vento a favor, a bicicleta andava solta e exigia pouco esforço para manter os 35 km/h.

O segundo dia de teste foi com vento, que não chegou a incomodar, andando pela Edgar Pires de Castro, com bom espaço. Embora não tenha forçado muito, senti que a bike tinha um giro solto, bem fácil, sempre silenciosa. Na Juca Batista, em um trecho com leve descida em falso plano, na relação 53 x 13, coloquei 58/h. Neste dia, ajustei os pedais de forma a deixar a fixação maior e o resultado foi muito bom. Senti a bike bem firme.

A geometria do quadro favorece o ato levantar do banco e acelerar. A frente mais baixa também torna a posição de pilotagem mais agressiva. O guidão ergonômico e os componentes em fibra de carbono, como mesa e canote auxiliam a dispersar a vibração das mais de 100 libras usadas nos pneus e tornam o conjunto bem mais confortável.

Terminado o test drive, fiquei muito satisfeito com a bike, embora um pouco contrariado em ter que devolvê-la... Andar nela foi uma delícia! Apenas tive algum receio quanto ao trânsito, adotando assim uma postura mais defensiva e "abusando" menos do equipamento, que "pedia" para andar mais forte em alguns pontos do trajeto. Na cidade, não é a melhor bike para uso, mas na estrada, seu habitat natural, com mais espaço, ela mostra sua verdadeira vocação: uma típica "road".

Já a GTS R3, que tem sido minha companheira ao longo dos últimos quatro anos, ainda pode ser vista como uma boa bicicleta de entrada. Mas mostra suas limitações quando comparada a modelos superiores. É uma bicicleta extremamente rígida, dura e por ser toda em alumínio, transfere toda a vibração do asfalto para o condutor, primando mais por desempenho que por conforto. Um pouco pesada, não justifica a montagem com um grupo mais caro, sendo muito boa para treinos e pedaladas médias, ao contrário da SDW, que seria quase que uma heresia se montada com algo abaixo de Shimano 105...

Para leigos e mesmo muitos ciclistas, muitas vezes é difícil compreender o motivo pelo qual determinadas bicicletas acabam tendo um custo mais elevado, mas certamente, após fazer um test drive em uma bicicleta superior, compreende-se a diferença. Baixo peso, conforto, rigidez e alto desempenho são características difíceis de juntar em um só produto. E como em um bom carro, quanto mais se oferece, mais elevado é o valor, ainda mais se comparado aos modelos mais "populares".

Em termos de confiabilidade, pode-se falar bem dos dois modelos. Minha GTS R3 usa peças básicas, sendo que em 4 anos, com uso em provas e longas distâncias, além de muito uso urbano, não tive qualquer problema com o quadro. O pedivela, desviador de marchas e STI, entre outras peças, são originais e estão em perfeito estado.

O câmbio traseiro (Sora), após mais de 15.000 km e algumas folgas, foi substituído por um modelo mais atual do mesmo grupo. Alguns componentes foram sendo trocados e claro, movimento de direção, movimento central e relação sempre acabam pedindo uma manutenção periódica por seu desgaste natural. Neste aspecto, por ser uma bicicleta que usa componentes superiores, espera-se que a SDW tenha uma boa longevidade, tanto no quadro, como no seu grupo. Ponto para os componentes Shimano, conhecidos pela sua qualidade, precisão e durabilidade.

Na segunda-feira, a bordo da minha GTS, senti a diferença na hora. Agora, é começar a estudar a migração para um modelo melhor, talvez não tão superior, mas mais leve, com pelo menos um garfo e alguns componentes em fibra de carbono, com uma geometria mais própria e um grupo de pelo menos 9 velocidades (Tiagra), já com alguns recursos a mais.

E esse é o destino de todo o ciclista que opta por montar uma speed básica e acaba pegando gosto pela coisa. E se você está pensando em adquirir sua speed, esperamos ter ajudado a escolher seu produto, ou mesmo um modelo que não seja tão básico ou tão top de linha. E neste aspecto, existem vários modelos com ótimos componentes e preço bem em conta, considerando o que oferecem.

Atualmente, uma bicicleta de ciclismo nova, no nível da GTS, fica em torno de R$ 2.000,00 (sem as rodas Xero, usando uma roda mais simples), enquanto a SDW deve ultrapassar os R$ 6 mil, o que para uma bicicleta em fibra de carbono e grupo de 10 velocidades, pode ser também considerado um "valor de entrada", mas certamente, será uma entrada com bem mais categoria e desempenho!

*Especial agradecimento aos nossos leitores, pois constatei que hoje atingimos recentemente mais de 40.000 visitas!

Nosso muito obrigado pelo reconhecimento do nosso trabalho!


Por: Rodrigo Hart Fagundes.
Equipe Rodociclo

Comentários

  1. Bom ler este artigo, tenho mtb e estou vendo uma gts r3 "pra ver se é bacana esse tal de speed" hehehe abraço

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