Chega de tanto imposto!



O Brasil tem vivido uma onda muito forte de protestos populares, que no fundo, refletem a insatisfação do seu povo com a realidade do nosso país. Por isso, faremos uma brecha na cobertura do Tour de France para falar de impostos. Eles, o fundo, estão por trás de boa parte da insatisfação do nosso povo com a realidade de vida que o brasileiro leva, pois pagamos para ter serviços de primeiro mundo e não encontramos esse retorno por parte dos nossos governantes.


Muito se fala da carga tributária no Brasil. E não é sem motivo. O nosso país tem uma das maiores cargas tributárias do mundo. Se paga imposto para quase tudo. E o pior, o que mais nos constrange e causa indignação é que não recebemos retorno dos bilhões de impostos que pagamos. Não temos segurança, saúde, educação nem qualidade de vida. Os serviços públicos que deveriam ser prestados pelo estado não funcionam e os que dependem da iniciativa privada se tornam mais caros por causa dos impostos. O pior é que pagamos duas vezes, uma através de impostos, que não temos como escolher pagar ou não e outra quando precisamos de algum serviço como educação, saúde ou segurança e acabamos buscando os mesmos na iniciativa privada através de serviços pagos, como escolas particulares, planos de saúde e segurança privada. Nossas cidades não têm estrutura para comportar a vida das pessoas que nelas vivem. 



Pagamos impostos e taxas sobre tudo, desde alimentos até vestuário, sobre água, luz, telefone, sobre todos os serviços que precisamos. Pagamos impostos de importação, de produção, de comercialização. Pagamos para andar nas ruas muitas vezes esburacadas, pagamos pela falta de qualidade do ar que respiramos, pagamos por uma água muitas vezes sem condições (e pagamos mais impostos quando compramos água de qualidade) e uma saúde e educação precárias. Pagamos sobre o trabalho e sobre a renda. Uma empresa paga impostos para ter funcionários e o funcionário paga sobre tudo que consome, paga para se aposentar, porém, sem muitas vezes saber se terá uma velhice digna após anos pagando impostos!



Quem quer ser empreendedor paga, quem quer trabalhar também paga impostos. Tantos impostos abrem brechas para a informalidade, pois lá fora tudo é mais barato e quem quer trabalhar de forma honesta aqui sofre com a concorrência desleal de outros mercados. E quem ganha com isso? Bom, sabemos que alguém ganha, mas não conhecemos o rosto dessas pessoas, pois elas geralmente não andam nas nossas ruas esburacadas, nem respiram o nosso ar poluído ou bebem a água que jorra das torneiras. São pessoas que não dependem da segurança, educação e nem da saúde pública. Esse é o ciclo da corrupção e do desvio e má utilização das verbas públicas, da lei do "jeitinho brasileiro", que procura sempre "se dar bem", que cada vez fica mais à mostra após inúmeros escândalos que vêm à tona diariamente.

O elo de ligação entre esses dois mundos, do jogo de interesses, onde muitas vezes o povo acaba esquecido,  tem um origem, uma chave. Escândalos e mais escândalos, corrupção, venda de oportunidades, de concessões, venda de votos, venda de cargos públicos, venda de privilégios, vendas das próprias leis que legislam pelo interesse dos mais fortes. Isso tudo é sustentado pelos impostos e pela falta de investimentos em educação!



O nosso povo tem a sua parcela de culpa, pois elege as pessoas que irão alimentar esse sistema, embora não tenha sido educado para ter senso crítico ou para pensar nas horas, dias do seu trabalho que não chega à mesa da sua família. O brasileiro é sim um povo alegre, feliz, mas em meio a tantas festas, alimentadas pelos salários milionários do futebol, em meio a tantos enredos de novela, em meio a tantas notícias manipuladas, esquece que paga de forma cara e silenciosa por toda essa alegria. 



E no recente cenário econômico, nosso foco é mais uma vez a bicicleta. Um meio de transporte alternativo, tão bem aceito e mesmo adorado no Velho Mundo, que aos poucos foi aposentando a mentalidade do carro, à medida que os próprios governantes e o povo em si se deram conta que era inviável manter tantos carros nas ruas, assim como economicamente e culturalmente a bicicleta era mais vantajosa.

Mas que aqui ainda é visto como uma alternativa para quem é "pobre" e não pode adquirir seu veículo automotor. Pois nem a bicicleta, sendo um meio de transporte, lazer e mesmo socialização tão barato e econômico, que não polui, não causa danos às vias públicas e ainda mais, contribui a longo prazo para a formação de uma sociedade mais saudável e menos dependente da saúde pública, escapou do crivo dos impostos. Muitas pessoas nos questionam sobre os preços de alguns produtos que comercializamos, especialmente quando são importados e podem ser comparados com seu preço lá fora, onde chegam a custar menos da metade!



Para explicar um pouco disso, resolvemos abrir para você alguns números que farão você pensar sobre o quanto você paga de impostos sobre tudo que consome e até quando quer andar de bicicleta! Uma empresa para funcionar paga uma série de impostos. Micro-empresas e empresas de pequeno porte pagam impostos de forma simplificada, mas ainda assim, estima-se que dependendo do ramo de atividade, a carga tributária mais custos e encargos de pessoal (apenas para pagar as contas do que é produzido e vendido) chegue perto de 70%. Logo, uma empresa funcionando de forma legal, com impostos, estrutura física e funcionários deve vender por R$ 170,00 um produto comprado por R$ 100,00 (ainda não falamos em lucro). E boa parte dessa diferença, quem paga é o consumidor final. E como a maioria dos produtos é importada, ainda temos os impostos pagos pelo importador. Quem paga é o consumidor final!


Além dos custos tributários inerentes às atividades operacionais, a empresa paga uma elevada carga tributária sobre o salário dos seus funcionários. Além do INSS e em alguns casos, imposto de renda que você paga, a empresa paga em encargos sociais (que deveriam ser revertidos para o próprio trabalhador). Acima, simulamos um salário de R$1.000,00 pago a um funcionário de uma empresa provada. Esse funcionário tem um custo mensal médio de R$1.918,89, ou seja, mais de 90% do seu salário, se computados os benefícios e encargos sociais.



Outros impostos como ICMS e IPI normalmente também são cobrados diretamente nos preços dos produtos comercializados, sendo no ramo das bicicletas dois vilões quase sempre presentes, uma vez que a maioria dos itens são importados. Eles são somados aos demais impostos pagos sobre as vendas e repassados ao preço dos produtos, assim como as despesas de pessoal e custos operacionais, como manutenção, aluguel, água, luz, telefone, etc. Em todos esses itens, existe um imposto por trás e quando você compra, é você quem paga.

Visitamos um site chamado Impostômetro, onde existe um link que permite que você calcule quanto do seu rendimento mensal é investido em impostos. Um cidadão de classe média/baixa, em média, trabalha de 9 a 14 dias por mês apenas para pagar impostos.

ICMS SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA

Este termo, mais conhecido para quem compra e vende produtos sujeitos a este regime tributário e profissionais da área contábil ou tributária foi a forma como o governo encontrou de se prevenir contra a sonegação de ICMS. Através dele, é presumida uma "margem de contribuição" que seria o valor que a empresa adiciona aos produtos, de onde seriam abatidos os custos, impostos e o lucro e sobre essa margem é aplicado um percentual de ICMS que a empresa deveria pagar na venda, só que esse imposto é pago antecipado, no ato da compra, sem que haja uma garantia que a empresa conseguirá vender o produto com a margem que muitas vezes é prevista. E nos casos de empresas optantes pelo Simples nacional, caso da maioria das lojas de bicicletas, esse imposto é pago duas vezes, uma na compra e outro quando a empresa paga seu ICMS sobre o faturamento. Quem paga isso é você!

Abaixo dois casos de bicicletas (uma marca nacional e uma importada) e a margem que realmente o lojista trabalha, considerando o custo e o preço de venda sugerido.



No cálculo acima, são cobrados de 14% a 24%, em média, de ICMS-ST (substituição tributária), que pode chegar a mais de 28% em peças, além do IPI, ficando à mostra que indústrias nacionais possuem alguns benefícios. Porém, em termos de mercado, sabemos que quase tudo que se produz em termos de bicicletas, sejam montadas ou peças e acessórios, são feitos em Taiwan, portanto, importados e sujeitos a uma tributação bem mais pesada. Além disso, essa iniciativa acaba fechando o mercado, o que deixa o consumidor com menos opções quando se trata de escolher um produto de sua preferência.





Quem busca bicicletas de boa qualidade, fica preso a algumas marcas que montam suas bicicletas no Brasil ou acaba pagando mais caro pelo que vem de fora. Com isso, é muito comum o caso de pessoas que acabam buscando no exterior vários produtos, não só bicicletas, mas eletrônicos e outras linhas, abrindo portas também para o contrabando e comércio ilegal, que prejudicam ainda mais quem trabalha dentro da lei. Tudo em função de impostos!



A mesma Specialized Hardrock que é vendida aqui por quase 1,8 mil reais, tem preço final sugerido no Estados Unidos de US$440,00, ou R$ 944,40, pela cotação de hoje do dólar comercial. Ela é vendida lá abaixo do preço de custo aqui!

Com base em tudo que estamos mostrando a você, podemos concluir de foma bastante ilustrada o porque que alguns produtos que comercializamos são considerados tão caros em comparação aos mesmos produtos vendidos lá fora, sendo que vivemos em um país que não tem a cultura de valorizar a bicicleta. No Brasil, temos a cultura constituída e difundida que bicicleta é um item sem valor, deve ser muito barato, pois nosso povo sabe o porque de dar R$ 30 mil em um carro popular, mas acha caro comprar uma bicicleta de qualidade que custa R$ 1 mil, sendo que em ambos os casos, estamos valando de um veículo que deve prezar pela qualidade, durabilidade conforto e segurança do condutor.



Nós também nos sentimos no direito de protestar. Protestar por mais respeito, por mais espaço nas nossas vias, por leis mais efetivas, pois quem conduz uma bicicleta paga sim muitos impostos e porque não, queremos chamar a atenção para os abusos da elevada carga tributária que pagamos, até para andar de bicicleta. O incentivo ao uso da bicicleta, certamente seria a longo prazo, sob os aspectos social, econômico e ambiental bem mais produtivo para nosso país. Tenhamos como exemplo os próprios países da Europa, que possuem economia forte e sempre usaram e valorizaram a bicicleta! Só nos falta a cultura, pois quem anda de bicicleta não está se inferiorizando a uma pessoa que anda de carro. Muito pelo contrário, ela está aprendendo a viver e ver a vida sob uma nova ótica muito mais qualitativa. Pensemos nisso!

Bom final de semana, boas reflexões e bons pedais

Equipe Rodociclo!

Comentários

  1. E se tirasse os impostos, os fabricantes repassariam para o valor final dos produtos ou iriam lucrar em cima disso?

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  2. Rodrigo, eu acredito que sim. Certamente ganhariam mais do público que normalmente compra as Caloi da vida e optaria por uma bicicleta de melhor qualidade. Mas isso ainda é um sonho, na verdade estes dias li uma notícia do presidente da Caloi querendo fazer lobby para aumentar ainda mais os impostos de importação. Ele sabe que não teria como competir com as importadas dada a qualidade de seus produtos.

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