Do esporte para a vida...


Essa semana comecei a treinar novamente. Treinar leitura. Há anos, eu ouvia falar do livro de Lance Armstrong, com o título "De volta à vida", um título lançado em uma época que o ciclista vivia seu auge no esporte. A primeira vez que ouvi seu nome, curiosamente, foi em uma aula de Contabilidade Societária I. O professor, um renomado consultor, começou seu primeiro dia de aula falando do ciclista Norte Americano, em um período da minha vida que eu nem capacete usava e minha bicicleta era uma Monark de aço, 18 marchas, com a qual eu pedalava pela cidade. Nesta aula, que nunca esqueci, ele contou um pouco da vida do ciclista que, no auge da sua carreira, teve que enfrentar o câncer e, quando ninguém acreditava no seu retorno, ele voltou por cima. Ele o usou como uma forma de motivação. Perto disso, nós que estávamos ali,  confortavelmente sentados, tínhamos a obrigação de darmos o nosso melhor!



Desde então, me tornei fã do ciclista e comecei a ler sobre ele e acompanhar sua carreira. Mais que isso, torcia por ele, embora não tivesse muita noção do que é o mundo do ciclismo. E assim, também descobri outros ídolos e passei a admirar outros nomes. Cancellara, Pantani, Indurain, Cadel Evans... Passei a gostar mais do esporte e me motivei a comprar uma speed. E hoje, eu sei que tenho apenas uma noção mesmo do que é o esporte de ponta, de elite. Mas com certeza, posso ler o livro com mais propriedade e espírito crítico.

Volta das Hortênsias 2008

Quando vi a capa do livro, de pronto me interessei, mas logo fui lendo trechos aleatórios, alguns mais no final, outros no meio, até me deter em uma leitura mais detalhada que ainda está para ocorrer. Sempre gostei de ler, mas notei que vinha perdendo esse hábito, atualmente mais exercitado em textos e matérias sobre ciclismo e bicicletas, que hoje mais que uma paixão, são a fonte do meu sustento (do esporte para o trabalho). E o esporte que eu trazia como hobby hoje é uma parte importante da minha vida. Convivo com ele diariamente. E do esporte para a vida, ele já me levou a lugares lindos!

Serra do Rio do Rastro  - Abril de 2009.

Mas, voltando ao livro, mais do que um relato com a cara do "sonho americano", onde claro, o ciclista engrandece sua carreira e seus feitos, hoje eu consigo ler a obra de forma mais crítica e mesmo compreender quem são alguns dos nomes mencionados nele, como Miguel Indurain, por exemplo, ou mesmo o nome de míticas montanhas europeias por onde passa o Tour de France. Hoje, após todos os escândalos envolvendo o dopping, onde Armstrong figura como uma das mais polêmicas figuras (como sempre foi, pelo seu forte temperamento e no seu livro isso é muito bem ilustrado), podemos dizer que é mais fácil ler e compreender o que há de verdadeiro na obra. 




Miguel Indurain

Por conhecer muitos bons ciclistas aqui no nosso meio, sabemos as dificuldades por que passam os atletas diante do esporte. Os gastos com equipamentos caros, os treinos exaustivos, as privações, a vida regrada, a alimentação cuidadosa, o tempo passado longe da família, os tombos e lesões. A vida de um ciclista não é fácil! Encarar o preconceito de quem não entende porque você pedala 100 ou 200 km em um dia também não. E o porque de você estar ali na rua arriscando sua vida em meio aos carros quando poderia estar fácil e confortavelmente a bordo de um!



 
Equipe Camer/Rodociclo

Muitos perguntam o que eu ganho aqui trabalhando em uma loja de bicicletas. E eu digo que tudo, de certa forma, é do esporte para a vida. A vida é um aprendizado constante, onde temos a oportunidade de crescer, de rever os pontos que deixamos para trás e de tentar reescrever nossa história. O que temos em comum com os melhores ciclistas do mundo? Pedalamos!

Treinamento com representante Garmin - 2013

O que une os melhores ciclistas do mundo que pedalam em nome do prestígio no esporte àquelas pessoas que pedalam no seu dia a dia, modestamente, para seu trabalho ou nas horas de lazer? Todos pedalamos, do esporte para a vida!

Treino de Tarumã maio/2013

Em um momento que o ciclismo tem vivido uma reviravolta, onde grandes mitos construídos ao longo de muitas temporadas e carreiras com vitórias brilhantes foram reduzidos a pó diante de escândalos, quase sempre envolvendo dopping, já não sabemos mais qual dos nossos ídolos confiar, ou qual será no futuro o alvo de acusações, ou quem será destituído de suas conquistas. Mas todos eles têm uma história de vida e um exemplo, seja que devemos seguir, ou mesmo evitar...


Recentemente, foi anunciado que o ciclista português Sérgio Ribeiro de 32 anos foi suspenso por doze anos, acusado de "anomalias" no seu passaporte biológico e perdeu seus títulos a partir de 2011. Ele não era um atleta conhecido aqui, mas em seu país sim e podemos dizer que sua carreira está precocemente encerrada. Mas conhecemos outros nomes, como Jan Ullrich, o grande rival de Armstrong, que também teve a sua carreira encerrada mais cedo, entre outros tantos.


 
Jan Ullrich, campeão 
do Tour de France de 1997 em 2013

Hoje, com o rosto mais cheio, ele é uma pessoa comum, como qualquer um de nós. E mais outros, como Marco Pantani, que se foi cedo demais. Polêmicos? Sim, mas eles deixaram seu legado para o ciclismo sim! Do esporte para a vida, não podemos tirar seus méritos no esporte. Se eles correram dopados, o fizeram em um meio que o dopping é quase que uma regra. Mas ainda assim, é preciso talento. Hoje surgem muitos nomes no esporte de trazem uma carreira limpa, como é o caso de Chris Froome, atual campeão do Tour de France. E acredito que eles mereçam crédito, por tudo que estão fazendo nesta geração.



Mas se lermos a obra de Armstrong, ainda assim, aprenderemos muito sobre o esporte, ainda que em outra época e aprenderemos com uma pessoa que teve que lutar contra o câncer. Contra ele não há dopping. E o dopping que ele mesmo assumiu publicamente, não torna menor a sua luta. Quando ele diz que "quando você descobre que tem câncer, todos seus medos parecem pequenas covardias" ou que "o sofrimento é passageiro, desistir é para sempre", ele nos ensina algumas coisas para a vida.

Dono de uma personalidade forte e polêmica, hoje vemos que ele não é o bom mocinho da história, mas por muitos anos ele trouxe visibilidade contra o ciclismo e seu trabalho ajudou muitas vítimas do câncer. Ainda ajuda.




O ciclismo certamente, assim como o atletismo e a natação enfrentaram muitos escândalos relacionados ao dopping, o ciclismo talvez mais que os outros, mas hoje, podemos dizer que aprendemos com os erros e acertos de cada um, mesmo com o bom ou com o mau exemplo de cada atleta. Armstrong deve ter aprendido algo e segue sua vida. E o que nos torna semelhantes a ele? Também cometemos erros na nossa vida, no nosso cotidiano, mas podemos escolher que tipo de exemplo desejamos ser. No seu caso, ele foi o mito de muitas pessoas. E hoje, não acredito que possamos simplesmente apontar um dedo.

Um atleta de renome traz em suas costas o peso da opinião pública, o peso de ser um mito, de não poder decepcionar os fãs. E a ganância por ser melhor, com certeza fez nascer uma geração de falsos mitos. Eles não estavam sós, havia por trás deles um batalhão de médicos, treinadores, equipes, enfim, outras pessoas que os fizeram ser quem são. O peso do dinheiro dos seus patrocinadores. E nós, reles humanos, o que temos com isso? Do esporte para a vida, vemos a verdade destituir os atletas de seu pedestal de deuses. São pessoas como nós! Mas ainda assim, nos deixam um legado.



O ciclismo é mais que um esporte e um lazer, é um meio de crescimento humano, de socialização, é uma porta para a construção de um mundo melhor. Nas pistas ou aqui nas ruas. Esse texto nasceu de uma conversa que tive com o Anderson (proprietário da loja) essa semana. Na próxima semana quero voltar a treinar (de bike) também, pois ontem pedalamos e voltei com cãibras e hoje sinto a musculatura, consequência dos dias chuvosos. E você, vai treinar? Vai passear? Não importa, apenas não deixe de estar em movimento.

Os dias estão maiores, logo chega a primavera. Aproveite! Tire a sua bike da garagem, exercite seu corpo, sua mente, recupere antigos hábitos, leia mais, saia de casa, tome sol, pedale! Permaneça em movimento, permaneça ativo, pois é o movimento, independente do sentido, que sustenta nossa vida.


Hoje também me dei conta que fechamos a loja e ainda havia luz. Passamos do horário de expediente atendendo um casal que saiu satisfeito com suas bicicletas. Amanhã alguém certamente vai pedalar com os frutos do trabalho desse sábado. Você também, saia para passear, para treinar. Treine a sua alegria. Exercite o hábito de ser feliz ao lado das pessoas que lhe são importantes. Para o atleta, o mais importante é correr e vencer ao som dos aplausos, é estar em forma. Para nós, o sucesso é vencer cada dia com a sensação da missão cumprida, seja com nosso trabalho, seja com nossa família, seja com nós mesmos.

É assim que encerramos esta postagem, que não teve nenhuma referência técnica, mas foi escrita pensando em cada pessoa que anonimamente pode tornar sua realidade um pouco melhor. Pratique esportes, exercite seu corpo, sua mente, viva sua liberdade e colha os frutos de uma vida mais saudável. Haverá uma reação em cadeia na sua vida. Este é o sentido de todo esse aprendizado. Do esporte para a vida!

Bom final de semana!

Equipe Rodociclo.

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