BIKE ROTEIRO: GIRO SERRA-MAR.


O último feriado de 7 de setembro, primeiro após os dias mais frios do inverno, caiu justamente em uma segunda-feira. Foi a ocasião perfeita para uma saída mais prolongada, onde muitas pessoas aproveitaram para curtir a praia, serra ou mesmo deixar o estado em direção ao litoral catarinense. No entanto, os dias que antecederam ao final de semana foram chuvosos e as previsões não eram as melhores.


Como as melhores coisas são aquelas que fazemos no improviso e no talento, na quinta-feira surgiu a ideia de fazer um pedal de três dias, saindo sábado no final do dia (em função de compromissos de trabalho) e fazer um roteiro pela serra gaúcha, que seria totalmente definido durante o percurso e de acordo com as condições do tempo.

Meu amigo e também cliente da nossa loja Tiago Suminski foi o parceiro de pedal nesta aventura. Ele e sua família partilham conosco a mesma paixão pelo mundo da bike, sempre incentivado pelo seu pai Sr. Gerson, outro amante das duas rodas, na bike e no motociclismo. A única coisa certa é que pernoitaríamos em São Francisco de Paula, com a tradicional (para mim) subida noturna da serra. Levamos pouca bagagem, apenas o essencial e optamos pela mountain bike devido à versatilidade e também por causa das possíveis condições adversas do tempo. Para o segundo dia, pensamos em Gramado, Cambará do Sul, Rota do sol... Muitas possibilidades, que dependeriam do tempo.


Os preparativos foram todos na noite anterior. Revisão de câmbios e freios, lubrificação da corrente, calibragem de pneus, equipamentos, faróis reservas, pilhas, câmaras, etc. Assim fui para o trabalho, como se estivesse saindo de viagem. Meia hora antes da partida, um amigo me liga dizendo que em São Francisco de Paula chovia torrencialmente. Um balde de água gelada em nossa aventura, mas aqui o tempo estava apenas nublado. Vamos assim mesmo! 

O encontro se deu na Assis Brasil, de onde partimos para a RS 020. No aplicativo do celular do Tiago, dizia que na madrugada a chuva cessaria. Saímos por volta de 19:00, em ritmo tranquilo após lanche e últimos acertos nas bikes, ambos equipados com piscas e dois faróis cada. Destaque para o "Knog Blinder Arc 5" do Tiago, que é muito potente, comparando-se à luz de um carro em muitos momentos. Mesmo na luz mais baixa, ilumina perfeitamente e com ótimo alcance, permitindo antecipar as reações a buracos e obstáculos na pista.


Chegando a Morungava, uma fina chuva nos fez parar e, francamente,  pensei que a partir dali o pedal seria com chuva mesmo. Desistir não era uma opção. Mas a chuva durou alguns minutos, apenas no ponto mais alto e logo adiante o asfalto estava seco. Chegamos a Taquara por volta de 22:30. Lanche e hidratação antecederam os 40 km de subida que nos aguardavam. A estada estava parcialmente interditada devido a quedas de barreiras, de modo que não nos preocupávamos com trânsito, até porque o forte do movimento dos carros estava previsto para o dia anterior e mais forte no sentido litoral.


Diferente dos pedais estressantes que estamos acostumados a fazer na cidade, este trecho foi uma oportunidade de descontração, conversa e, por muitos momentos, meditação. A forte neblina que nos envolvia dava um clima de aventura. Nós, a estrada, os faróis, a neblina e as bikes! Nos últimos trechos de subida, o cansaço foi chegando. Não se via muita coisa em diversos trechos a não ser as marcas do asfalto a curta distância. O ponto mais alto nos levou a 920 metros do nível do mar, chegando ao centro de São Francisco por volta de 03:00, com temperatura de 10 graus.


Havíamos comunicado aos amigos do Corpo de Bombeiros sobre nossa chegada. Com a hospitalidade de sempre, nos cederam alojamento e banho. O lanche, previamente comprado em uma loja de conveniência local, repôs as energias para o segundo dia, que ainda tinha destino incerto. Fechamos o dia com 104 km e 2.064 metros de ganho de elevação.



No domingo, dormimos boa parte da manhã e o tempo sempre com neblina não permitia ter noção de como estava o tempo na serra. O clima local peculiar, conhecido como "viração" destaca as intempéries de uma da regiões mais frias e úmidas do estado, mas para os amantes da natureza, cria o cenário perfeito para ter contato com a verdadeira energia que remete às nossas origens e nos faz refletir sobre nossa vida e nossos valores. 



Após o meio dia, ficamos cogitando sobre o que fazer, quando o Tiago me pergunta: "O que tu achas de irmos até a casa do pai, lá em Tramandaí? Tem um churrasco nos esperando...". Foi o "start" para vermos quais seriam os melhores roteiros e neste dia seria o auge do nosso pedal. Entre descer a RS-020 e ir por Rolante e Santo Antônio da Patrulha até a Free-Way ou descer pela Rota do Sol, esta segunda foi a opção mais atrativa. Aumentava apenas 30 km a distância, mas propiciava a chance de pedalar nos Campos de Cima da Serra, um roteiro muito singular para os amantes do cicloturismo. Neste dia, foram 161 km, saindo de 970 metros de altitude para terminar o dia no nível do mar. 


Saímos depois das 15 horas, de forma que sabíamos que haveriam mais trechos de escuridão em nosso trajeto. Minha intenção era chegar aos túneis da Rota do Sol com dia para bater algumas fotos. Por volta de 17 horas chegamos ao entroncamento da RS-020 com a Rota do Sol. À medida que nos afastamos de São Francisco, o tempo foi abrindo, o que comprovou que o clima severo era bem localizado no entorno da cidade.


A parada no Café Tainhas é obrigatória. Os pastéis são ótimos! Ali o céu estava aberto e tinha sol. Fomos pedalando pela RS-453 vendo a tarde cair e com ela, muitas nuvens chegando. Na verdade, elas envolviam a estrada nos trechos de serra e estavam se afastando lentamente, mas nós estávamos as alcançando. Logo, vieram trechos de asfalto molhado. Mais uma vez pegamos uma "janela" de tempo bom, como na noite anterior, onde choveu na capital e no litoral, menos onde passamos!


Quando chegamos no topo da descida de 15 km já não se via muita coisa, apenas as luzes das cidades muito distantes. Com faróis mais potentes, o Tiago soltou os freios, eu fui mais prudente. Parei nos túneis e registrei minha passagem. As paradas nos renderam meia hora de diferença até nos reencontrarmos à beira da estrada para um caldo de cana em Itati.


Dali, revezamos forçando o ritmo, que passou dos 35km/h em vários pontos. O acostamento estreito e um pouco sujo exigia cautela, mas como estávamos com pneus de trilha, beleza! Nosso GPS dizia que faltavam apenas 65 km. Mas o pedal não rendia tanto como nossa expectativa. Por volta de 21 horas chegamos à BR 101 e por já ser um horário avançado, foi a nossa opção. Também havia chovido ha pouco, mas as nuvens deram lugar a um céu muito estrelado.


Um ponto bem curioso foi a travessia dos túneis da BR 101. Na sua entrada havia uma placa avisando que não poderiam passar bicicletas. Apesar de bem sinalizados e com ótimos acostamentos, essa norma torna a vida dos cilistas que por ali passam mais trabalhosa, fazendo um desvio que, na verdade, nem sabíamos como chegar. Foi quando disse ao Tiago para entrarmos rapidamente e acelerar tudo que dava. Já quase saindo, vi que uma viatura da concessionária veio se aproximando e nos acompanhou nos últimos metros. Agradecemos pela escolta e por terem compreendido nosso momento. Ali tive que trocar pilhas de um dos meus faróis e seguimos.


Cansados, começamos a calcular os quilômetros que faltavam. O Tiago ditava o ritmo, eu mais cansado, começava a ter cãibras, mas ia administrando. Não tivemos muito tempo para nos recuperar do primeiro dia de subidas. Assim adotamos a seguinte brincadeira: para tudo que pensávamos sobre o trajeto e distâncias, segua o comentário, falta uns 10 ou 20 km e depois... Mais 65 km!!! Foi assim até Osório, por volta de 23 horas, quando o Tiago me diz: "Para a casa do Pai, faltam apenas 24 km, mas depois tem mais 65..."


Estes últimos 24 km foram sofridos. Chegamos a Tramandaí passando da meia noite, e passava da 01:00 de domingo quando chegamos à casa do Sr. Gerson, que com o sorriso franco que é sua marca registrada, perguntou se estávamos bem. Graças a sua boa acolhida e da esposa e familiares, tivemos janta e banho quente, antes do merecido repouso.


Na manhã de domingo, acordei mais cedo que o Tiago, que dormiu até o meio dia. Deu tempo de tomar café da manhã e jogar conversa fora, tomar sol é até molhar os pés na água do mar. Combinação perfeita para o último dia. Havia a opção de vir de carro, mas tínhamos a bike e as pernas ainda aguentavam. Eu já não estava com o mesmo pique e custei a pegar ritmo. Parte das coisas ficou lá para serem trazidas de carro. Afinal, agora estávamos chegando. 


Saímos por volta de 14 horas, pegando as estradas vicinais  já congestionadas. Na Estrada do Mar, mais trânsito e na Free-Way, com acostamento liberado até Santo Antônio, um caos, com carros passando mais perto. Mas a galera nos respeitou. Pensei em deixar a free-way e entrar em Santo Antônio, mas isso aumentaria a volta em 40 km. Após o primeiro pedágio, o acostamento voltou a ser só nosso. O Tiago vinha em um ritmo mais forte e tinha compromissos. Assim, nossa despedida foi na estrada mesmo. O fim da jornada para mim se deu em Canoas por volta de 20 horas, com 121 km, bastante cansado mas com uma ótima sensação de liberdade, acumulada ao longo dos quase 400 km e as belas paisagens na memória. Valeu a pena!


Agradecimentos ao nosso amigo Tiago, seus familiares e todas as pessoas que fizeram parte destes momentos, só possíveis porque partilhamos de um mesmo gosto, uma paixão que nos propicia liberdade, saúde e muitas histórias legais para contar. E por essas e outras, que adotamos aqui o slogan "Aqui a gente pedala de verdade".


Seguem abaixo os links com os roteiros que fizemos e altimetria, devidamente registrados no Strava:

https://www.strava.com/activities/385843729

https://www.strava.com/activities/386678544

https://www.strava.com/activities/387366262

Forte abraço e bom final de semana!
Equipe Rodociclo

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